31.05.2021
“É preciso dar valor ao conhecimento empírico, cultural e tradicional”

- Hafiz Jamú, Presidente da Associação Ilha de Moçambique

Texto e Foto: Faizal Raimo

Descemos ao Macuthi da Ilha de Moçambique ao encontro de Hafiz Jamú, uma das figuras proeminentes da sociedade civil local, Fundador e Presidente da Associação Ilha de Moçambique, uma agremiação que tem estado a lutar para conservação e preservação do património. Congrega um total de dezoito associações, entre legais e tradicionais. Nesta entrevista, Hafiz Jamú fala dos motivos que levaram os ilhéus a solicitarem a instalação de uma faculdade na Ilha de Moçambique, as assimetrias existentes entre as cidades de Macuthi e a de Pedra e Cal, bem como, os passos recursivos que a sua agremiação tem vindo a levar a cabo, para quebrar uma fronteira existente entre a antiga zona de brancos e de pretos, colocando-as no mesmo nível. E traça trilhas de como a FCSH pode capitalizar a mistura de conhecimentos de que dispõe a Ilha, sem perturbar o ambiente de convivência local.

Hafiz também fala dos vários ganhos que advém da existência de uma faculdade na Ilha de Moçambique. As meninas que ontem trabalhavam a terra, hoje pretendem ter uma participação intelectual e as crianças apresentam um coeficiente de inteligência muita alto e já mais visto nos últimos anos.

Ilha de Moçambique (IM): Naquela altura, onde surgiu a ideia de pretenderem uma faculdade na Ilha de Moçambique?

Hafiz Jamú (HJ): Primeiro devo assumir que fui muito controverso em quase todos os momentos desencadeados para a criação da Faculdade. Na verdade foi uma solicitação que me deixava dividido entre receios e vantagens. Tinha receio que o ambiente universitário, as teorias universitárias fossem perturbar o ambiente de convivência local. Mas como sabe, o saber tem seu alicerce que é baseado no saber cognitivo, o saber tradicional, não organizado. Estava com receio que fosse perturbado esse saber. Mas por outro lado, havia pontos importantes e positivos sobre a presença da Universidade na Ilha de Moçambique, a partir do momento em que sabemos que o conhecimento organizado e sistematizado traz mais-valia. Então eu ficava sempre dividido e me questionava quase que constantemente: como é que o saber sistematizado não vai perturbar o saber tradicional?!

(IM: Quatro anos depois, como é que avalia a convivência desses dois saberes?

HJ: Felizmente ainda não houve nenhuma perturbação. Houve uma situação em que estivemos juntos com o Reitor, que era a maneira de vestir de algumas alunas que chegavam para ingressar a universidade, não tinha nada a ver com a maneira de vestir da Ilha de Moçambique. A minha preocupação era na altura, o que é que vai acontecer? Será que as pessoas vão imitar esta maneira de vestir? Então, temos pessoas que estão constantemente atentas. O facto dos estudantes estarem nos bairros, há uma vantagem porque alguns trocos de renda passaram para famílias que antes não ganhavam nada e começaram a perceber a vantagem do turismo, mas as meninas, principalmente aquelas que vinham de Mogovolas e Cidade de Nampula, não tinham o ambiente religioso emanado pela Ilha de Moçambique. Quando chegasse o momento de relaxar, elas podiam sair para a rua de calções bastante curtos. Esta pessoa tem influência no seu meio de residência, tem status de estudante universitário, o que a criança local vai pensar desta forma de vestir? Mas depois de eu ter falado com o Reitor, sendo aquela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, não de engenharias, que percebi o lado não linear do ser humano, houve uma vantagem, algumas coisas foram mudadas. Eu apareço, neste caso, a impulsionar a faculdade, também no ponto de vista que somos um legado de relacionamento inter-cultural com vários povos, ao nível de sermos reconhecidos e classificados como Património Mundial da Humanidade por um organismo Internacional, a UNESCO.

(IM: Essas estudantes conseguiram adaptar-se à cultura local?

HJ: Agora não há reclamação. Numa das reuniões que tivemos com o Magnifico Reitor, Francisco Noa, um Sheik, chegou de comparar a forma em que as estudantes vestiam-se, como se fossem autênticas prostitutas. Era um choque! As alunas do ensino primário e secundário não se vestiam como aquelas. Tratamos esse choque no princípio e internamente, a faculdade conseguiu resolver isso felizmente.

(IM: Mas, o que teria levado o vosso grupo a pensar na instalação de uma faculdade na Ilha?

HJ: A Ilha de Moçambique atingiu o nível de ser classificada e reconhecida como património Mundial. E essa interacção, diversidade cultural, religiosa, étnica, tinha uma gema na sabedoria. Essa parte, sendo a Ilha de Moçambique, uma zona com potencial conhecimento, não fazia muito sentido não existir uma casa ou instituição de conhecimento. Nesta perspectiva, uma universidade de ciências sociais que pudesse lidar com o ser humano, com a conservação do património, com ciências humanas e com o registo das suas potencialidades, era preciso. Veja que existe um documento sobre o património imaterial da Ilha de Moçambique que foi iniciado há dez anos, nunca foi publicado. Esse documento tem muito saber, como construir um barco na Ilha de Moçambique, como entortar uma tábua que vai entrar naquela parte da barriga do barco, esse é um saber, é uma arte, mas que não tem nada a ver com a engenharia. Tem a ver com o saber humano acumulado ao longo de vários anos de interacção com a natureza.

(IM: Como é que pensa que a faculdade poderia ajudar a ultrapassar este problema?

HJ: Uma das coisas muito boa é que a Ilha de Moçambique foi bombardeada de várias consultorias. Recebi vários estudantes voluntários em número de 150 de diversas universidades do mundo para ajudar na realização de trabalhos de campo, a mapear conhecimento, a fazer programas e projectos. Eu tenho a noção desta parte de carpintaria, tenho a noção de joalharia, mas o registo académico disso, não existe.

(IM: Está a dizer que passaram por aqui muitos consultores que não divulgaram os resultados?

HJ: Nada foi divulgado! Nem se quer feita a assembleia para a discussão desses estudos, para que estivessem conservados aqui na Ilha de Moçambique.

(IM: Podemos dizer que a divulgação das potencialidades era um dos objectivos do esforço exercido pela vossa associação em trazer uma faculdade para Ilha?

HJ: Sim. Não foi esforço da minha associação apenas, como também de outras forças vivas da Ilha para que a Universidade Lúrio trouxesse uma faculdade que pudesse documentar a nossa rica história. Nós estamos velhos, daqui a pouco morremos e as coisas com quem ficam? Felizmente, as minhas filhas participam nessas coisas, mas outros jovens, não! Esta passagem de testemunho não estava acontecer efectivamente. Com a faculdade, os alunos podem ir trabalhar como voluntários na associação de que sou membro e podem resolver isso. Eu acabei tomando uma decisão: neguei receber estudantes voluntários do estrangeiro. Pedi para que me pudessem trazer apenas estudantes moçambicanos para que eu ensinasse o que deve ser feito. A UCM em Pemba, Departamento de Turismo, mandou-me quatro estudantes voluntários, destes, dois no fim dos seus trabalhos ficaram aqui na Ilha, um deles trabalha no Gabinete de Conservação. Eu estava a negar trabalhar com estudantes estrangeiros porque estavam a sugar as nossas informações, ou seja, recolhiam dados e não retornavam.

(IM: A ginástica de trazer a Faculdade foi fácil?

HJ: Não foi. Há pessoas que nem se quer estão a viver aqui na Ilha, apesar de serem daqui. Por exemplo, o Luís Filipe e o irmão, Luís Bernardo e outras, essas pessoas jogaram um papel importante para que a faculdade viesse para aqui. Agora, nós, estamos aqui, fizemos aquilo que é essencial no nosso contexto. Por exemplo, quem escolheu aquele local onde funciona a faculdade, perto do Tribunal, fui eu. Solicitei um edifício para ser a sede da nossa associação, então o Estado cedeu-nos aquele edifício, só que a minha associação é virada para área cultural e, está aqui na cidade de Macuthi. Tivemos que escolher um outro edifício que fica aqui perto do hospital, porque entendemos que devíamos ficar aqui e lá seria longe. Então nós estamos aqui no limite entre onde os brancos vivem, porque queremos rebentar essa fronteira entre a zona de brancos e pretos, porque aqui não há brancos e não há pretos, somos todos uma Ilha.

Nesta linha de pensamento, deixamos o edifício da cidade, preferimos ficar aqui no Macuthi. Quando me foi solicitada a opinião sobre onde é que a universidade devia se instalar, indiquei aquele edifício que havia dispensado, aquando da procura do edifício para a nossa associação.

(IM: A zona insular da Ilha está dividida em duas cidades, a de Macuthi e a de Pedra e Cal, com bastantes desigualdades. Muitos dizem que a cidade de Macuthi é a que pouco é divulgada, consequentemente, desvalorizada. Na sua opinião, como equilibrar essa desigualdade entre as duas cidades?

HJ: Falei uma coisa muito importante no início desta conversa. Cuidado! Conservação do património é algo muito vulnerável. A gente deve viver na casa, tocar objectos, mexer, usá-los, mas temos de mantê-los assim. Temos que conservar. Preservar é outro assunto que significa exactamente, utilizar e capitalizar. Nós ganhamos o dinheiro, mas ele tem que estar lá. Agora fazer parte desta coisa é que a Faculdade, sendo uma coisa, instituição de conhecimento organizado, é preciso dar valor ao conhecimento empírico, cultural e tradicional. Valorizar esse conhecimento para que este apareça como capa de revista. Estamos a dizer o seguinte: escrever uma história sobre os ritos de iniciação de um barco, mas não desprezar. Tem que valorizar, ou seja, um barco quando é feito, chega tempo da sua inauguração, antigamente naquelas naus morria alguém. Era degolado alguém até que o sangue escorresse na guia. Hoje, a Europa rebenta um champanhe. Está a ver a relação? No tempo dos nossos antepassados, por causa da religião muçulmana, disseram: não matem ninguém, degolem um cabrito, uma vaca, uma galinha. Alterou todo aquele sistema, hoje degolamos uma galinha e é aquele sangue que entra naquela guia.

(IM: Como essas vivências devem ser capitalizadas pela FCSH?

HJ: Escrevendo! Escrever esses momentos. Escrever de forma organizada, mas sem banalizar, porque é isso que a pessoa que vem de fora quer vivenciar. Essa é que é a matriz do conhecimento desorganizado e empírico. Quando é valorizado é genuíno. Na escrita académica podem perguntar porque é galinha? Nós estamos a dizer que antigamente era pessoa, mudou por causa da religião, esta é a história, mas de forma académica. Agora nós vamos ver aqui a forma representativa de degolar o ser humano e colocar o sangue dele na guia de um barco e com um ritual vai para o mar. Esse ritual de galinha, se todas as pessoas perceberem que seria usado sangue de um ser humano, tem outra componente, está a ser valorizado. Parece teatro, mas não é. É realidade! As pessoas gostam de vivenciar isso. Gostam de memorizar isso, as lendas que aconteceram na Suécia, na época do gelo e da escuridão. Houve escravatura aqui na Ilha de Moçambique. Houve negros heróis aqui nesta terra, então é isso que tem que ser capitalizado.

(IM: Em jeito de finalização, Sr. Hafiz, poderia avançar-nos aquilo que achas que são ganhos que advém da existência de uma faculdade na Ilha de Moçambique?

HJ: Tenho colhido frutos directos e indirectos. O ganho directo é que a minha filha está a estudar lá. Sinto as vantagens na pele. Em condições normais, a minha filha teria que estar em Nampula. O meu primeiro filho, por exemplo, estudou em Quelimane, a segunda filha na cidade de Nampula, a terceira também fora de casa, em Nampula, mas esta, não há necessidade de ela sair, come, o que eu como. E, ainda participo na vida da faculdade dela. Eu adoro isso, ver minha filha a estudar e a discutir assuntos da vida académica. De repente, quando ela entrou na faculdade, mudou a forma de falar, hoje ela é assertiva, raciocínio coeso. Estou confiante que vou morrer, aquela não será escrava de ninguém, isso para mim é um ganho.

Agora não estou a falar de outras pessoas. Hoje na Ilha de Moçambique já é possível nascer aqui, estudar da pré até chegar ao nível superior, sem ter saído daqui. Para estudar, não precisa ir para Nampula. Neste quarto ano de faculdade, a performance intelectual que vejo, sobretudo na minha filha, esses alunos que estão nos bairros, devem estar a ensinar as crianças, boas coisas. Se for a medir o coeficiente de inteligência, veremos que não é o mesmo que há seis anos. Hoje essas crianças interagem com jovens que estão nos seus quintais e que são estudantes daquela faculdade. Esta é mais uma valia para a Ilha de Moçambique.

O protagonismo que esses estudantes dão para as outras camadas da juventude que estão a fazer o ensino primário e secundário, alguns deles já sentem a vontade de estar lá um dia.

Em Jembesse, as meninas que antes acordavam e iam trabalhar a terra, hoje já querem andar bem vestidas e terem participação intelectual. Isto não podemos negar, aquela faculdade está a trazer mudanças. Finalizo parabenizando a Ilha, ao Magnifico Reitor Francisco Noa e sua Vice Reitora por terem conseguido nos instalar uma faculdade, mesmo tendo sido um desafio enorme a avaliar pelas dificuldades decorrentes da falta de infra-estruturas no início. Quero também, parabenizar a todos que deram a sua contribuição para tornar realizável o sonho de ter uma faculdade na Ilha de Moçambique, ao antigo presidente do município e aos estudantes que mesmo sem condições aceitaram se alojar nos becos da nossa cidade, suportando todos os riscos que isso oferece.